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| Foto: Sue Gardner/Wikimedia |
A pobreza no Brasil diminuiu nas últimas décadas com programas de transferência de renda e o aumento do salário mínimo. Entretanto, isso não significa que a desigualdade vá continuar caindo no País.
Essa é a avaliação do economista francês Thomas Piketty, autor do livro best seller O Capital no Século 21, em debate promovido sexta-feira (28) na UFABC (Universidade Federal do ABC), em São Bernardo do Campo.
— A pobreza caiu. Não há dúvidas quanto a isso. Mas mesmo assim a desigualdade pode crescer. O Brasil já é um país muito desigual.
No livro que o tornou mundialmente famoso, Piketty critica a concentração de renda causada pelo modelo capitalista, que vem contribuindo para o empobrecimento da população na base da pirâmide social.
Sobre o Brasil, o economista afirma que faltam dados sobre renda, o que dificulta a compreensão do real nível de desigualdade no País.
VÍDEO: Sistema tributário no País poderia ser mais justo, diz economista
Há ainda confusão na unificação dos dados. Por exemplo. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, os 10% dos brasileiros mais ricos concentram 45% de toda a fortuna nacional. Entretanto, o número sobe para 55% conforme a coleta de outros dados fiscais.
Piketty veio ao Brasil divulgar o seu livro, que teve versão lançada em português no começo de novembro.
A obra defende, por meio de dados de imposto de renda de diversos países, que o mundo passa por um processo contínuo de concentração de renda. Ou seja: a distância entre pobres e ricos está aumentando.
Piketty critica privatizações da década de 1990
O que fazer no Brasil?
Para Piketty, o Brasil só vai diminuir a diferença entre ricos e pobres com mais e melhores impostos. Para o economista, o País precisa de mudanças no sistema tributário. Uma solução seria taxar as grandes fortunas.
A Constituição de 1988 prevê um IGF (Imposto sobre Grandes Fortunas), mas a taxação nunca foi regulamentada pelo Congresso. Políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e a ex-candidata à Presidência Luciana Genro (PSOL) já apresentaram projetos, mas que nunca foram para frente.
Piketty também alerta para o fato de o Brasil possuir impostos indiretos (taxação de produtos, por exemplos) que incidem de forma igual sobre pessoas de todas as rendas. Impostos progressivos sobre o patrimônio, por sua vez, funcionariam como forma de reduzir a desigualdade.
O economista também critica a baixa taxação sobre heranças no Brasil.
— Só paga 4% [de impostos] se ganha uma herança de R$ 10 milhões. Paga-se mais em salário do que em herança.
