3 de dez. de 2013
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Uma viagem diferente

3.12.13
Fotos: Thays Bittar
Nossa equipe fez com que o repórter sem nenhuma dificuldade locomotora fizesse um trajeto por calçadas e de ônibus com uma cadeira de rodas.

O problema de mobilidade que um cadeirante enfrenta pode só entrar na nossa cabeça quando nos colocamos em seu lugar.

ARTHUR GANDINI
Reportagem feita para o 6º semestre do curso de jornalismo da Umesp

Três repórteres: um fotográfico, um sentado em uma cadeira de rodas e outro com o gravador na mão para fazer entrevistas. Dois locais: o de início e o de chegada. Mas o meu objetivo era apenas um: sentado na cadeira de rodas como se fosse um deficiente físico, sair da redação do Portal RROnline e ir até o Paço Municipal saobernardense de ônibus com a mínima ajuda de meus colegas. Assim achamos que seria mais fácil perceber os problemas que o cadeirante pode enfrentar ao utilizar o transporte público e para chegar até ele. Quando me vi tão pequeno e dependente das pessoas a minha volta enquanto o elevador do ônibus intermunicipal que pegamos subia lentamente em meio a um barulho de campainha, senti pela primeira vez como um deficiente físico depende de um bom transporte público pelo qual o Estado é responsável.

Trajeto começou na redação do
Portal RROnline.
 Nosso time de nove jovens jornalistas tinha de fazer uma reportagem sobre o transporte metropolitano, o tema do nosso trabalho semestral do 6º semestre de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.  Um colega sugeriu abordarmos a dificuldade dos cadeirantes se locomoverem. A professora responsável pelas aulas de mídia imprensa, Alexandra Gonsalez, foi além: por que não fazemos gonzojornalismo, quando o repórter se coloca dentro do fato? A ideia foi aceita de prontidão. Fui eu então na cadeira de rodas, minha colega Thays Bittar ficou responsável por tirar fotos e Gustavo Cipriano por fazer as entrevistas comigo e me ajudar caso eu tivesse algum problema no trajeto.

A experiência é oportuna já que, de acordo com lei de 2000, todos os ônibus do país terão até o ano que vem que estarem equipados para dar acessibilidade a deficientes físicos. Conforme a legislação, os ônibus podem ter o piso baixo, o piso elevado (desde que parem apenas em plataformas elevadas de pontos de ônibus) ou elevadores especiais, opção mais usual. Segundo dados da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e informações oferecidas por seis prefeituras do ABC, 862 dos 1359 ônibus circulando ano passado nesses municípios tinham os elevadores. Em São Bernardo, onde fiz o trajeto como cadeirante, 177 dos 437 veículos, a maior frota da região, tinham os ônibus com essa acessibilidade. Já na metrópole, 2600 dos 4200 ônibus circulando possuíam os elevadores.

Funcionário ajuda repórter a mudar de calçada.
Calçadas

O modo de chegar ao Paço Municipal de São Bernardo saindo da Universidade Metodista de São Paulo, que fica no bairro do Rudge Ramos, é fácil para uma pessoa comum. Basta sair da faculdade, andar três quarteirões até o ponto de ônibus na avenida que dá nome ao bairro e pegar um ônibus até o Paço – a maioria dos que passam na avenida tem esse destino.

Mas para um cadeirante, entra um fator que nós pedestres podemos não perceber: a altura das calçadas. Antes de começar o trajeto, treinei um pouco como usar cadeira. Exige força dos braços girar as rodas com as mãos, mas em questão de minutos se acaba pegando o jeito. Saímos então da redação no edifício Delta da universidade e descemos uma longa ladeira até a parte mais baixa do campus. A faculdade tem indicações e partes mais baixas nas calçadas para facilitar a vida dos deficientes físicos. Um funcionário do campus, que não sabia que eu não era deficiente de verdade, oferece-se para me ajudar, mas continuo sozinho. Os freios nas laterais da cadeira davam uma certa segurança.  Mas a coisa mudou ao passar da catraca de saída da universidade.

Cadeira entala na guia.
>>>  Região – Nº de ônibus com elevadores - % do total da frota
Metrópole – 2600 – 61%
ABC – 862 – 63%*
São Bernardo – 177 – 31%
Dados de 2012
Fonte: ANTT e prefeituras da região
*Não consta frota da cidade de Rio Grande da Serra 

A calçada do lado da Metodista possui um vão de descida para a rua. Mas não havia nenhum vão na calçada do outro lado. Entretanto o vão da calçada que estava era muito raso. O resultado: fiquei entalado. Com esforço, saí para a rua e segui pela beira dela até subir pela calçada em uma rampa do estacionamento do Colégio Metodista. Sigo então até que no final da calçada, perto da Delegacia da Mulher, não há nenhuma descida. O resultado foi eu entalar novamente, mas dessa vez pedi a ajuda de meu repórter colega.  Aí a surpresa da dificuldade entrou na cabeça de todos: não havia nenhum vão na calçada seguinte que permitisse que eu subisse. O resultado foi eu andar dois quarteirões na beira da rua com carros passando ao meu lado. Só tive duas escolhas ao chegar à esquina da Avenida Doutor Rudge Ramos: virá-la e dar de cara com carros na contra mão ou ter a cadeira carregada para subir na calçada. Antes de escolher a segunda opção, quase que a cadeira tomba enquanto converso distraído com a frente dela embicada na calçada. Após ser ajudado, sigo um quarteirão e chego ao ponto de ônibus.
Guia da outra calçada não oferece acesso.
No ônibus

“Às vezes eu me coloco no lugar dos cadeirantes, o acesso é muito difícil às calçadas”, opina Elisabete Cunha, funcionária pública, 44, no ponto de ônibus. “O acesso não é tão fácil não, ônibus com elevadores, você vê alguns.”

Quando você não é um cadeirante, muitas vezes não repara se um ônibus está equipado para acessibilidade. Não faz diferença, principalmente se você estiver com pressa para chegar ao seu destino. Mas a coisa muda como cadeirante: quanto tempo irá demorar a chegar um ônibus com elevador?

Os três ônibus que vimos passar tinham elevadores. Pegamos o terceiro após fazer entrevistas. Perguntamos ao motorista se o ônibus passava pelo Paço Municipal e se poderia levar um cadeirante. O motorista confirma e desce do veículo.  Roqui Gerônimo, 43, diz para mim preocupado com os olhos brilhando: “não se preocupe, eu vou te prender no elevador”. Coloco-me pela primeira vez no lugar de um cadeirante com medo de cair do elevador já que havia decidido tentar não usar as pernas até chegar ao Paço. O repórter pensativo pergunta: “é só eu me segurar aqui?” Sou então preso por um cinto no canto do ônibus destinado ao deficiente físico após sair do elevador.

Cinto especial é insuficiente para cadeirante
ficar parado no ônibus.
Gerônimo desconfia de que não sou cadeirante e até me questiona, mas continua oferecendo a ajuda de bom grado mesmo após eu contar que estamos fazendo uma reportagem, sem deixar de omitir a minha experiência. Ele conta a meu colega Gustavo |Cipriano que se a maior parte da frota de ônibus já tem elevadores, existem outros problemas. “Na hora de fazer o embarque, às vezes, no ponto de ônibus, tem carro estacionado, nós não conseguimos encostar o ônibus corretamente para embarcar o cadeirante", afirma ele.

Observo que as dificuldades dos deficientes físicos não desaparecem quando eles entram no ônibus. Bato na parede do veículo e chacoalho de um lado para o outro se não me seguro firme em barra no canto especial para cadeirantes. O impacto das curvas do ônibus fez com que duas vezes o meu cinto se soltasse e que eu ficasse parado apenas devido a estar segurando a barra. Aperto a campainha especial ao meu lado quando ao ponto de ônibus mais perto do Paço e percebo que ela é diferente das outras campainhas com um apito alternado. O ônibus para e Gerônimo me coloca no elevador. Uma nova surpresa: o ônibus é mais alto que o nível da calçada. Só desço com a ajuda de Gerônimo e de outro motorista.
Elevador do ônibus mostra sensação de impotência.

Faróis, esperem-me

Para chegar ao Paço Municipal, é preciso andar dois quarteirões e depois atravessar dois cruzamentos. Se isso já é perigoso para um pedestre, imagine para um cadeirante.

Entalo pela terceira vez ao descer da calçada do primeiro quarteirão. Subo na próxima calçada com ajuda do outro repórter e aceito começar a ser empurrado por ele, já cansado de girar as rodas da cadeira com os braços. Desço a calçada e aceito a ajuda oferecida por pedestre que assistia a cena para subir à próxima guia. O próximo obstáculo agora é atravessar o cruzamento com um farol de pedestre que leva para uma ilha que divide os dois fluxos da via que leva a outro farol antes da calçada do Paço.  Preciso de ajuda para descer a calçada sem entalar. Isso, mais a travessia, tem de ser feito após o farol de pedestres ficar verde (se fizer antes posso ser atropelado) e antes dele fechar, questão de sete segundos, no máximo. A primeira tentativa não dá certo e não desço a calçada com medo do farol fechar durante a travessia. Consigo na segunda tentativa e paro na ilha que divide a avenida. Atravesso a próxima faixa de pedestres com ajuda de um estranho que eu tinha recusado asntes da outra travessia.

Enfim na calçada do Paço Municipal, acelero e entro pelo estacionamento. A dúvida: conseguirei chegar sozinho à secretaria para visitantes da prefeitura? Tudo parece correr bem até subir pelo vão de calçada na entrada da prefeitura – feito para deficientes – mas entalo novamente porque ele é raso demais. O mesmo acontece na agência bancária ao lado.

Desafio completo e ao percebermos que é impossível um cadeirante chegar sozinho à prefeitura da cidade, decidimos ir fazer um lanche. Para chegar ao outro lado da avenida e ir até padarias da Avenida Faria Lima, passamos por uma passarela com subidas e descidas bem íngremes. Desistimos de lanchar ao perceber em duas padarias que os degraus na entrada tornam impossível meu acesso.

Levanto da cadeira em um canto discreto do Terminal de ônibus de São Bernardo. Minha volta à redação da universidade será como pedestre ao contrário do planejado
A cadeira para ser carregada é pesada, mas não tanto quanto a consciência de se perceber a dificuldade de um cadeirante utilizar o transporte público e as calçadas na cidade. É como tentar se transportar em um mundo que parece não ter sido feito para a gente.
 
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