| Ivan Cotrim decidiu ser sociólogo e não se arrepende disso. Foto: Sérgio Pires/FSA |
ARTHUR GANDINI
Entrevista feita para a aula de Jornalismo Científico do 6º semestre de jornalismo da Umesp
Ele usa uma roupa simples, óculos com o aro redondo - estilo o do bruxo da série britânica “Harry Potter” - e uma barba que poderia ser comparada à dos “barbudos de la Sierra” que fizeram a revolução socialista de Cuba em 1959.
É assim que encontro um sociólogo já há 41 anos - professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Santo André - na última instituição, onde também é coordenador do curso de ciências sociais, ramo que escolheu quando tinha vinte e dois anos.
Ao entrar em uma sala de aula vazia, digo que gostaria de fazer o perfil de um sociólogo em um lugar com o qual ele se identificasse.
-Tem algum lugar melhor para o professor do que uma sala de aula?, brinca ele.
Hoje, Ivan Cotrim, aos 63 anos de idade, tem certeza do que sente pelo caminho que escolheu para a sua vida há 41 anos: as ciências sociais.
- Paixão que nutre a minha existência, nutre as minhas condições materiais, não consigo me ver fora disso. A minha atividade me formou o tipo de pessoa que se preocupa com o ser humano.
Nem sempre foi assim. Ivan estava no terceiro ano do curso de matemática e tinha experiência no teatro aos 22 anos. Os exercícios de psicodrama despertaram o seu “olhar psicológico”. No ano seguinte, começaria o estudo na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Seu mestrado em ciência política na Unicamp iniciaria em 1982, mas seria concluído apenas em 2007 devido à interrupção para cuidar de seu projeto da Editoria Ensaio, voltada para o ramo das ciências sociais. A editora faliu em 1997, mas lhe dá muito orgulho. Nesse ano, em 2013, o sociólogo concluiu o pós-doutorado na USP de História Econômica. Mesmo 42 anos depois, Ivan ainda se lembra da reflexão que o teatro lhe ofereceu.
- O personagem é um ser que está sempre formado em dadas condições sociais. Ele expressa a realidade de um determinado momento.
O sociólogo apaixonado por analisar a sociedade e pela área da crítica econômica e política, conta que não se recorda de um momento em que mudou a forma de pensar e olhou para a sociologia. Mas expressa o quanto isso importou para ele.
- (Foi uma) mudança radical. Não entrei nas ciências sociais mudado. Fui mudando. A alteração é marcante. Nas ciências exatas, (o caráter humano) é pouco dimensionado. Existe em algumas atividades, mas está mais voltado para a educação e muito menos para a questão ideológica. Sem uma identidade ideológica, fica difícil de reconhecer o homem e se reconhecer como homem.
De matemático e ator para sociólogo, seu jeito de pensar mudou. Após iniciar o estudo de ciências sociais, o pensamento político aumentaria ainda mais a “energia renovadora” que que passou a motivar sua vida. “Modestamente falando”, tem uma “razão clara”, “o compromisso com a realidade”. Seguidor das ideias marxistas, critica a economia que prega o lucro e a competição.
Ivan é apaixonado por dar aula. Enxerga na docência “um relação a qual você não tem como se afastar da relação humana.” Tudo que faz é voltado para melhorar a consciência das pessoas. Diz que quando está pesquisando, está pensando nos alunos. Põe-se em uma relação em que tenta mudar e se aprimorar.
- Rompi com matemática, as ciências sociais foram marcantes para mim. Depois que deixei a matemática, entrei em um patamar novo (que) conservo em andamento.
Mas seu conhecimento antigo como matemático tem utilidade, hoje? Desperta a sua análise?
- Você vê o quanto as equações matemáticas são fruto das relações humanas. O desenvolvimento humano vai criando novas lógicas. O homem transforma a natureza, cria uma forma. A matemática, como lógica das formas, trabalha a lógica da forma dada pelo homem. O triângulo existe na natureza, o homem o universalizou: três ângulos internos, todo triângulo tem.”
A vida de um sociólogo coloca as ciências sociais na cabeça 24 horas por dia. Cotrim acompanha o noticiário e é difícil que passe um dia sem ler. Compra muitos livros, pesquisa e acompanha o que está sendo discutido e publicado na área. Não dá para cessar a pesquisa. Sua bolsa carrega sempre um papel e uma caneta para anotar algo e alguns livros.
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| Papel e caneta para anotar suas ideias são o conteúdo indispensável na bolsa de Cotrim junto com os livros que lê. Foto: Arthur Gandini |
A reflexão sobre o indivíduo e a sociedade aparece nas conversas do dia a dia, embora procure conversar sobre qualquer assunto com seus colegas da área.
- “Acaba caindo nisso. (O assunto de uma conversa) envolve a performance do pensamento atual, o que pesquisadores estão fazendo, os caminhos que estão percorrendo. Mas temos divergências sérias, mesmo entre os mais chegados. No fundo, mesmo que todos tenham os mesmos objetivos, as formas de chegar lá não coincidem exatamente.
A discordância de pensamento também desmitifica o senso comum de que todo sociólogo é esquerdista e a linha política da sociologia na área não é diversificada.
- Tem sociólogos de direita que tem muito peso nas faculdades. Quando você analisa currículos, a parte bibliográfica utiliza fortemente os mais conservadores. Cursos, mesmo da Usp com todo aquele histórico (esquerdista), quando você vê o currículo de algumas disciplinas, é de assustar!”
Mas Ivan não tem relações pessoais apenas com professores e pesquisadores.
- Tenho amizade com o funileiro, o dono do bar, nunca fui seletivo nesse ponto, com qualquer pessoa que você converse, sai algo importante. É o trabalho humano, o dia a dia que diz se a teoria está correta. Mas a gente acaba tendo uma relação mais próxima com o pessoal mais próximo da área.
Na linha de pensamento de Cotrim, vivemos em uma sociedade onde todos aparecem iguais perante a lei, mas não recebem a igualdade na prática. O modelo “burguês” da igualdade jurídica “indiferencia os indiferentes”. A maioria das pessoas é alienada e não enxerga a desigualdade camuflada. O valor material acaba se sobressaindo ao homem. Enxergar isso causa impressões variadas nas pessoas quando olham para ele como sociólogo. Duas reações são as principais.
- Um carro muito bonito, um computador muito sofisticado é superior a qualquer homem. A compressão de que não existe o carro sem o homem parece que desapareceu.
Então quando as pessoas se deparam com alguém que estuda essa área, ou é: “nossa, como é legal”, ou “o cara está perdendo tempo, não vai ganhar dinheiro!”
Mas como ele se sente sabendo que pertence à minoria que enxerga esse contexto da sociedade?
- Excluído! Cada vez mais velho e cansado (responde ele rindo)! É difícil você ficar em um ambiente onde sabe que não vai ser compreendido. Então você, hoje, conversa muito com os iguais, vai a um congresso de professores, estudantes, pesquisadores.
Mas o humor dele combina com o ânimo para ser sociólogo e ensinar as pessoas.
- Se morrer por isso, já está acima do que imaginava (ser no futuro) na infância!
Para ele, o caminho que escolheu valeu a pena. Lembra-se do ex-aluno Eduardo Kaze que edita, hoje, um jornal laboratório na Fundação Santo André que circula com periodicidade de dois a quatro meses.
- Ele é um cara que faz isso de graça porque aprendeu que fazer algo de bom pela humanidade vale à pena. Um jornal de ciências sociais, o primeiro do Brasil. Pode pesquisar. “Informação que não se vende”.
- “Acaba caindo nisso. (O assunto de uma conversa) envolve a performance do pensamento atual, o que pesquisadores estão fazendo, os caminhos que estão percorrendo. Mas temos divergências sérias, mesmo entre os mais chegados. No fundo, mesmo que todos tenham os mesmos objetivos, as formas de chegar lá não coincidem exatamente.
A discordância de pensamento também desmitifica o senso comum de que todo sociólogo é esquerdista e a linha política da sociologia na área não é diversificada.
- Tem sociólogos de direita que tem muito peso nas faculdades. Quando você analisa currículos, a parte bibliográfica utiliza fortemente os mais conservadores. Cursos, mesmo da Usp com todo aquele histórico (esquerdista), quando você vê o currículo de algumas disciplinas, é de assustar!”
Mas Ivan não tem relações pessoais apenas com professores e pesquisadores.
- Tenho amizade com o funileiro, o dono do bar, nunca fui seletivo nesse ponto, com qualquer pessoa que você converse, sai algo importante. É o trabalho humano, o dia a dia que diz se a teoria está correta. Mas a gente acaba tendo uma relação mais próxima com o pessoal mais próximo da área.
Na linha de pensamento de Cotrim, vivemos em uma sociedade onde todos aparecem iguais perante a lei, mas não recebem a igualdade na prática. O modelo “burguês” da igualdade jurídica “indiferencia os indiferentes”. A maioria das pessoas é alienada e não enxerga a desigualdade camuflada. O valor material acaba se sobressaindo ao homem. Enxergar isso causa impressões variadas nas pessoas quando olham para ele como sociólogo. Duas reações são as principais.
- Um carro muito bonito, um computador muito sofisticado é superior a qualquer homem. A compressão de que não existe o carro sem o homem parece que desapareceu.
Então quando as pessoas se deparam com alguém que estuda essa área, ou é: “nossa, como é legal”, ou “o cara está perdendo tempo, não vai ganhar dinheiro!”
Mas como ele se sente sabendo que pertence à minoria que enxerga esse contexto da sociedade?
- Excluído! Cada vez mais velho e cansado (responde ele rindo)! É difícil você ficar em um ambiente onde sabe que não vai ser compreendido. Então você, hoje, conversa muito com os iguais, vai a um congresso de professores, estudantes, pesquisadores.
Mas o humor dele combina com o ânimo para ser sociólogo e ensinar as pessoas.
- Se morrer por isso, já está acima do que imaginava (ser no futuro) na infância!
Para ele, o caminho que escolheu valeu a pena. Lembra-se do ex-aluno Eduardo Kaze que edita, hoje, um jornal laboratório na Fundação Santo André que circula com periodicidade de dois a quatro meses.
- Ele é um cara que faz isso de graça porque aprendeu que fazer algo de bom pela humanidade vale à pena. Um jornal de ciências sociais, o primeiro do Brasil. Pode pesquisar. “Informação que não se vende”.
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| A reportagem aceitou o desafio de Cotrim e não encontrou outra publicação pioneira. Foto: Divulgação |
O jornal pode
nos fazer refletir sobre o poder de formação de opinião que a sociologia tem nos
campos de economia e política, área de interesse de Ivan. A divisão de pensamento dos sociólogos gera
“luta ideológica” nos departamentos de ciências sociais entre os pensadores
dessa área.
- Isso vai
para partidos, associações, para todo mundo. Você vai emitir críticas, pode ser
em artigos, textos em jornais, isso vai se espalhando.
Ivan
analisou em seu mestrado como o discurso do ex-presidente da república e
sociólogo, Fernando Henrique Cardoso, não é marxista como normalmente lhe é
atribuído. A dissertação “O capitalismo dependente em FHC” mostra que Fernando
Henrique utiliza o marxismo para analisar a sociedade e ideias conservadoras
para analisar a economia.
No final da
conversa, Cotrim devolve a reflexão para o entrevistador ao contar que é uma
pessoa que sente a mesma curiosidade que motiva um jornalista. Lembra que
muitos profissionais da imprensa há algumas décadas tinham formação de
sociólogo devido a não obrigatoriedade do diploma. Mas as profissões têm as
suas diferenças.
- O jornalismo
faz o trabalho de captar a notícia. A gente capta no campo da teoria, não tanto
no da informação. São duas interações muito parecidas.
Mas a
motivação de Ivan para analisar a sociedade se contrapõe a uma reflexão
negativa dela. O mundo está se tornando mais conservador e menos crítico até na religião, pensamento
que tende a ser conservador.
(São) Tomás de Aquino era uma luz no fim do túnel na Igreja. O problema é, quinhentos anos depois, homens defendendo aquilo. Quem é (como) Tomás de Aquino, hoje? Não existe mais.
No final da conversa, conta-me que vou ganhar alguns presentes. Dá-me os livros “América Latina: o centenário de uma luta inacabada”, “América Latina: contradições e alternativas” e “Karl Marx: a Determinação Ontonegativa Originária do Valor”, o último escrito por Ivan.
Mas afinal, existe algum problema em pertencer a uma minoria que enxerga a sociedade de um jeito diferente? Não seria melhor ser o que chamam de “normal”? O que é não ser normal para Ivan?
- Bastou
você já não repetir a realidade, já não é normal. Quem critica é por que a quer
manter (a sociedade da atualidade).
Eu fiz uma escolha que acabou sendo um eixo de
condução da minha vida. Poderia ter feito outra escolha e ter me dedicado. Não
sei como teria sido.
Eu acho que
certas áreas chamam a atenção de algumas pessoas, de outras, não.
SG: Entrevistas sobre o que está acontecendo no Mundo
SG: Entrevistas sobre o que está acontecendo no Mundo

