ARTHUR GANDINI e
DÉBORA KOMUKAI
Via Rudge Ramos Jornal
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| Em 2001, o local que hoje está o São Bernardo Plaza Shopping, abrigava a empresa Brastemp - Foto: Débora Komukai |
O ABC não é o mais o mesmo de décadas atrás. Enquanto a região com tradição industrial perdeu algumas plantas de fábricas nos anos 90, como as da Brastemp, Black & Decker e Perkins, o setor de serviços cresceu na região e acompanha a tendência da economia brasileira dos últimos anos. Para a coordenadora do curso de Ciências Sociais da Universidade Metodista de São Paulo, Lucieneida Praun, o aquecimento do último setor setor acentua a desigualdade social da população do ABC por meio do consumo.
“Passa-se a ter serviços aqui na região que são inacessíveis à maior parte da população. A divisão entre as classes fica mais nítida. Tem supermercados hoje no ABC que são voltados para o poder aquisitivo mais elevado.”
Outro impacto da mudança de cenário econômico é o rebaixamento salarial dos trabalhadores com a migração de postos de trabalho do setor industrial para o de serviços, já que o primeiro tem trabalhadores mais bem remunerados, em geral.
“Hoje eu pago para trabalhar”, disse Moacir Bragueiroli, 67, ex-metalúrgico que tem uma loja de bolsas no Rudge Ramos.
O comerciante concorda que o setor industrial paga melhor do que o de serviços em sua maioria. E, se tivesse de deixar de ser proprietário atualmente, preferiria voltar a ser torneiro mecânico a funcionário de loja. Mas admite que valeu a pena a mudança na época. “Com 14 anos eu ganhava mais que o meu pai [que também trabalhava no setor]. Depois [já casado, aos 41] me apareceu uma oportunidade para trabalhar em uma loja grande [de bolsas, em Santo André].”
De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, a média de renda do setor industrial no ABC era de R$ 3.757 e no de serviços, R$ 1.870 até setembro de 2012. Também conforme números do Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) divulgados em dezembro, o primeiro setor obteve o saldo negativo de 23 mil postos de trabalho, e o setor de serviços, o positivo de 49 mil empregos no ano passado.
Mudança histórica
A população que hoje se insere no setor de serviços foi afetada pelo novo cenário econômico das últimas décadas e teve seu perfil alterado para menos fabril, segundo Lucineida Praun. “O ABC até os anos 80 era uma região onde havia praticamente moradores operários. Não é que a região deixou de ser industrial, visto o peso do setor automobilístico”.
A socióloga contou que, nos anos 90, a atividade dos países pelo mundo passou por um momento em que os governos flexibilizaram o controle do mercado e a economia se globalizou, o que aumentou o comércio entre os países. Locais com legislações trabalhistas mais fracas e explorações maiores dos trabalhadores, como a China, começaram a oferecer produtos de menor custo para nações. “Parte dessas empresas automobilísticas, em vez de comprar de fornecedores locais, passou a importar peças.”
Outro fator de mudança foi uma nova estratégia industrial, o que Lucieneida chamou de “fábrica enxuta”. “O modelo hoje não é das grandes manufaturas. No lugar desse cenário se encontram as pequenas plantas descentralizadas. Esse modelo de fábrica que se instalou aqui no ABC nos anos 50, 60, que é a fábrica fordista, enorme, mudou. Muitas empresas foram buscar outros lugares para se instalar no Brasil, descentralizando a produção. Antes as empresas se agrupavam com todos os setores. Agora elas diminuíram suas estruturas para especificar e controlar melhor seus negócios.”
Devido a problemas urbanísticos, como o trânsito, parte da classe média da capital migrou para regiões próximas como o ABC, impulsionando o setor de serviços aqui.
“Nos anos 80 não existiam nesta região alguns tipos de serviço típicos pra classe média. Exemplos são as grandes padarias e petshops”, afirmou Lucieneida.
Aristeu Butrico, comerciante do ramo alimentício em Santo André, conta que a maioria dos seus clientes, atualmente, são executivos. “Apenas uma parcela são trabalhadores da indústria da região.”
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