13 de mar. de 2017
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Reforma da Previdência agrava falta de planejamento dos jovens

13.3.17
Especialistas criticam possíveis novas regras e alertam para maior tempo de contribuição

Leonardo é metalúrgico no ABC e ainda não pensa sobre
 quando irá se aposentar. Foto: Andris Bovo
ARTHUR GANDINI, via ABCD Maior

O jovem metalúrgico Leonardo Farabotti, 27, contribui há oito anos para a previdência social. Trabalhador de uma montadora em São Bernardo do Campo, ele conta que não faz o planejamento de quando deve se aposentar e contribui para a previdência apenas por conta do desconto na folha de pagamento da metalúrgica, sem nunca ter pensado em formas de antecipar a contribuição. “Para falar a verdade, não cheguei ainda a pensar nisso. A galera mais nova, é (um costume) cultural, não se preocupa com isso”, analisa.

Para o educador financeiro da entidade de crédito SPC Brasil, José Vignoli, a possível Reforma da Previdência defendida hoje pelo governo torna mais urgente começar a contribuir desde cedo para a previdência. “As discussões em torno da reforma sugerem que será cada vez mais difícil se aposentar. Assim, o despreparo poderá obrigar os jovens de hoje a continuar trabalhando tardiamente”, alerta.

Tramita atualmente no Congresso Nacional a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 287/2016 que torna necessário atingir a idade mínima de 65 anos e ter pelo menos 25 anos de contribuição para se aposentar pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) com o recebimento de 76% do valor contribuído. Se aprovada ainda a proposta, será preciso contribuir por 49 anos para receber o valor integral.

“Muitos jovens ainda demonstram pouco conhecimento em relação à melhor maneira de se preparar aposentadoria”, afirma Vignoli. “Os jovens precisam entender que suas ações em relação ao dinheiro podem trazer benefícios duradouros ou gerar problemas como o endividamento e a restrição ao crédito”, aconselha o especialista.

De acordo com pesquisa do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) divulgada na semana passada, a preparação para a aposentadoria por meio de alternativas como a contribuição autônoma e a aplicação em poupança não é um costume comum entre os jovens brasileiros. Conforme o estudo, quatro em cada dez jovens de 18 a 30 anos (38,7%) não se preparam para a aposentadoria antes de ter um emprego de carteira assinada. O percentual sobe entre as mulheres (48,2%) e os jovens pertencentes às classes C, D e E (43,6%). Foram entrevistados 601 consumidores de ambos os gêneros e de todas as classes sociais nas 27 capitais brasileiras.

Quem vai pagar a conta?

O governo aponta que a reforma é necessária por causa do envelhecimento da população e do aumento das despesas da União, mas especialistas defendem a mudança como uma forma de fazer os mais vulneráveis arcarem com o déficit da previdência. “A gente tem uma série de aposentadorias que não são discutidas, como a dos servidores públicos e a dos militares. É um questão de justiça social”, critica o professor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) Volney Golveia. “Há grandes empresas e grupos econômicos que não contribuem para pagar o déficit da previdência”, afirma.

O jovem metalúrgico Alexandre é contrário à Reforma da Previdência pelo aumento do tempo de contribuição. “Temos que barrar essa reforma (por meio da pressão popular). A juventude também poderia estar mais engajada nessa questão. O neoliberalismo está muito forte na juventude”, critica o trabalhador, fazendo relação com a lógica de corte de gastos no setor público e de menor presença do Estado na economia.

Alexandre também possui um plano de previdência privada oferecido pela empresa que é descontado em sua folha de pagamento. Para Golveia, a reforma é do interesse de empresas financeiras de previdência privada e que oferecem outras formas de poupança e investimento, como a venda de títulos privados. “A reforma beneficia esses setores. Uma vez que você realiza uma forma, amplia-se a expectativa de se ter que contribuir por mais tempo”, afirma. O professor também aconselha, entretanto, que é interessante fazer outras formas de poupança independente do INSS por conta de haver maior controle do dinheiro poupado para o consumidor.

Conforme números da Susep (Superintendência de Seguros Privados), autarquia responsável por regulamentar o setor, havia 1.892.063 contratos de previdência privada ativos no país em dezembro do ano passado. Já a expectativa de vida média no ABCD era de 78 anos até o ano passado, de acordo com números do Inpes/USCS (Instituto de Pesquisa da Universidade Municipal de São Caetano).
 
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