9 de dez. de 2013
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Juventudes Partidárias

9.12.13
Entrevistas feitas para a Revista Poder, projeto do 6º semestre de jornalismo da Umesp

O campo de ideias dos partidos tem tantas opiniões diversas quanto as cores de seus símbolos.
Na política, a linha de atuação das siglas vai dá esquerda para a direita dependendo do quanto cada agremiação defende a interferência do Estado na economia.

A reportagem conversou com representantes de seis juventudes partidárias.

Confira os principais trechos das entrevistas abaixo.

Erik Bouzan
Juventude do PT
Centro-esquerda


Poder – O PT mudou muito nos últimos anos. Qual é o papel de quem está em uma juventude partidária? Pode criticar mais o partido, tem essa liberdade?

O PT tem um amplo processo de discussão. É papel da juventude organizar essas críticas. A Juventude do PT apoiou as manifestações e foi contra o aumento da passagem. Quem está de fora acha que é tudo conspirado. Teve gente dentro do governo que foi contra nossa ação e gente a favor.

A Juventude é o PT do futuro?

A gente não gosta de usar esse termo, é o PT do presente. Alguns (dos jovens) ficaram na direção do partido, outros voltam para o movimento social, vão para a vida partidária, “viram parlamento”. O (Alexandre) Padilha (ministro das comunicações e pré-candidato ao governo do estado) foi secretário de juventude. Mas não é uma escolinha para formar quadros. Temos peso político. Os anos 80 inteiros, o PT era um partido de jovens. Você está passando agora por uma transição geracional. A máquina pública “sugou” mais da metade de nossos quadros políticos.

Com as manifestações, você vêem uma crise de representatividade do PT?

Senti na grande maioria desses jovens que foram pra rua, jovens que não faz dez anos a (sua) consciência de vida. É uma juventude que reconhece o PT como status quo. Os pais fazem (a comparação com outro governo), mas eles não viveram essa época. Cresceram no nosso governo. Você não via um cartaz (nas manifestações) pedindo mais emprego, contra a crise econômica. Foram pautas de uma época interior. É um desafio do nosso governo entrar para outro patamar para acompanhar as mudanças sociais.

Igor Cunha 
Juventude do PSDB
Centro-direita


Poder – Muita gente vê a juventude partidária como uma escola para políticos. É isso no PSDB?

É isso. O filho de militante já vê “o meu pai está trabalhando, vou seguir o caminho do meu pai”. Mas é uma minoria, a maioria é o pessoal quem vem de fora, trabalha, não tem tempo ou não quer seguir carreira política, mas quer ajudar. Essa liderança é importante pra ocupar o lugar desses políticos que estão saindo. É um passo no futuro. Estamos fazendo hoje essa política local, mas o cara que chegue pode ser que já possa ser candidato a deputado federal. O vereador Floriano Pesaro (de São Paulo) foi um dos fundadores da juventude.

Como você vê os tempos de manifestações e como a juventude pode participar disso?

A gente escreveu uma carta super polêmica, inclusive no partido. Quem pudesse ler o manifesto poderia ver que nós fomos a favor (dos protestos pela redução da passagem). A nossa carta era do segundo dia de protesto, o dia de “quebra quebra” que a gente não iria participar. Mas (a carta) entrou na “burocracia” do partido. O presidente municipal do partido tem que aprovar, brigamos inclusive. Demorou e saiu no dia onde os manifestantes foram agredidos. Teve gente que só leu o título. “Juventude do PSDB é contra as manifestações”.
As pessoas não acreditam mais em partidos, veem tanta coisa errada. Os partidos entraram em um processo de falarem todos as mesmas coisas, tudo movido pelo marqueteiro. O jovem da nossa idade vê isso e fala: “Dane-se política”. Só que agora eles está vendo que não adianta só estudar e tocar a vida, se o governo não fizer as coisas corretas, você se dá mal. Aquele grito preso na garganta de todo mundo está soltando. O jovem hoje precisa procurar um partido ou entender mais a política para votar consciente, fazer com que as pessoas que estão lá (no poder) mudem.



O PSDB é conhecido por ter muitas disputas internas. Como a juventude atua em relação a isso?

As disputas são normais e raramente as pessoas vão ter o mesmo raciocínio. Na eleição da juventude municipal, tiveram divergências. Mas a gente faz de tudo para ter um consenso. Na executiva (do partido) é um problema. A gente não tem cargos, briga por ideologias, pensamentos.

Correntes do Aécio e do Serra influenciam na juventude?

Boa pergunta. (ri) O Serra e o Aécio, a gente busca não interferir tanto para não ter esse risco, mas sempre tem o cara que não gosta do Serra, tem o cara que não gosta tanto do Aécio. Tem muito essa rixa, sim. Mas na hora que tiver um candidato, é todo mundo unido pensando em derrotar o inimigo comum.

Marcela Moreira
Juventude do PSOL
Esquerda


Como atua a Juventude do PSOL?

Fica muito claro nas manifestações de junho que existe um rechaço na organização partidária e muitas vezes é melhor participar como movimento e não como partido. Nesse exato momento, a gente precisaria fazer mais um trabalho social explicando as diferenças de partido. Muitas vezes a gente tem que se apresentar como uma juventude, mas não uma juventude de partido, se não somos rechaçados.

Como vocês vê a participação do jovem nas manifestações?

As instituições estão em descrédito, então não é (apenas) a forma partidária que está em descrédito. Os sindicatos estão, a política tradicional está, muitas vezes a igreja. O jovem foi pra rua, manifestou indignação. Por não haver organização que canalizasse essas indignações, a luta deu uma reprimida. Agora volta com um grupo organizado (os Black Blocs). Os políticos estão achando que os jovens voltaram para a inércia de sempre, mas podem se surpreender com o resultado eleitoral do não que vem.

Falta formação política para esse jovem?

Falta muita. Uma das coisas que conseguimos fazer nas manifestações, a galerinha mais disposta a discutir, a gente propunha fazer formação política. Então a gente ia à escola depois da manifestação, a gente não tinha lugar para se encontrar, combinava “tal dia na praça”.

Raul Marcelo
União da Juventude Comunista (PCB)
Extrema-esquerda


Você comparou para mim as manifestações ao movimento de quebra das máquinas na Revolução Industrial.

O movimento cartista. Nesse período do movimento, os trabalhadores não reconheciam nas máquinas a superestrutura do Estado e sim como apenas um órgão repressor. Como resposta, eles quebravam as máquinas. As manifestações acontecem e as pessoas tem noção do Estado repressor. Nós não vimos a organização de uma classe e sim de setores.

Você é acha que é possível usar as manifestações para politizar os jovens?

As organizações de esquerda têm de aproveitar as fissuras do capital para conscientizar ao máximo, trazer o debate político. Há vinte anos nós vemos o momento histórico de ascensão do Partido dos Trabalhadores que foi combativo durante boa parte da infância (da juventude atual). Hoje ele é o partido da ordem. Eles cresceram vendo o PT, seus pais também. Somos os netos da Ditadura Militar 1964-85 (onde grupos de esquerda foram atuantes).

Como você vê o jovem que se manifesta?

Boa parte da juventude era de classe média. Não acho que a classe média é mais politizada (do que a periferia), mas ela tem acesso a mais informações.

Bruno Gabriel
Juventude do PMDB
Centro


A Juventude do PMDB atua próxima dos parlamentares do partido?

Muito próxima. Nossos políticos são ligados à juventude, temos total liberdade, nos recebem e nos aconselham pela experiência.

Muitos falam que o PMDB é um “grande todo que se fragmenta no país” em que cada estado pode se aliar a um partido diferente. A Juventude também tem essa autonomia?

Não existe essa autonomia. Os núcleos acompanham o partido. O direcionamento do PMDB é o para todos os núcleos, seja o das mulheres, jovens, afro, evangélico. Se não houvesse uma hegemonia, haveria uma bagunça tremenda.

Como você vê a participação do jovem brasileiro na política?

Todos os partidos, infelizmente, de uma forma não planejada, se afastaram um pouco da sociedade. A sociedade ao assistir casos de corrupção foi se afastando dos partidos e da política. Mas as pessoas devem estar atentos a outros movimentos (em que a juventude se reúne). É o movimento do Hip Hop, do grafite, do esporte, do futebol, música eletrônica. Nesses movimentos, a política continua a acontecer. Todo jovem anseia em participar, mas a política se fechou em um formato que não os atrai.

Leandro Jacob
Juventude Democratas
Direita


Você acha que uma juventude pode dar um ar novo para o partido? Quando ele fica no poder, se afasta das ruas?

Pode. Lógico que o jovem às vezes é um pouco imaturo, mas o idealismo característico ajuda aquela pessoa (mais velha) que já se tornou mais pragmática.

O que você achou das manifestações?

Essa questão das vozes da rua é interessante. Os políticos lá de Brasília não entenderam. Eles precisam ouvir os jovens de seus partidos para tentar captar. “O que que eles estão querendo dizer?” Brasília é uma “ilha da fantasia”, fica à parte do Brasil. Ele está fora da realidade. Entrar em contato com o jovem antenado vai ajudar a renovar a política. Nossa geração, daqui algum tempo, vai ser a que vai estar no poder.

O que passa na cabeça do jovem que protesta hoje?

Se você pegar uma pessoa de quarenta e poucos anos que era o jovem na época da Diretas Já, um cara pintada, provavelmente foi petista naquele período porque o PT parecia com uma renovação. Quando (o PT) ficou no poder nos anos 2000, frustrou toda essa geração e a nossa geração, mais nova, também se desiludiu com esse sonho da esquerda. Ele está desiludido e acha que política é tudo igual. Não quer entrar na política: “é tudo nojento, escroto”. Só que se você não entra, vai continuar tudo como está. Encontro gente no ônibus que fala: “tem que explodir o Congresso!” Se você explodir o Congresso, vai se ter uma Ditadura (onde o governo governa sem o Legislativo).

Texto e entrevistas: Arthur Gandini
Fotos: Divulgação
 
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