23 de jun. de 2012
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Baixa Renda planeja menos o orçamento

23.6.12
Francisco Funcia: "Consumo é decorrente da
necessidade." Foto: Luciano Vicioni
A necessidade de consumo aumentou nos últimos anos, diz economista

ARTHUR GANDINI, via ABCD Maior

Os consumidores das classes A e B são os que mais planejam as suas compras, de acordo com pesquisa realizada neste mês pelo Target Group Index, grupo que estuda o consumo de produtos e serviços. Entre os 20.736 entrevistados, 70% dos brasileiros das classes A e B declararam que geralmente planejam bem a compra de produtos caros, contra 61% da classe C e 57% das classes D e E. Os números contrariam a ideia de que quem tem uma maior renda pratica um consumo mais desenfreado, devido ao maior poder econômico.

De acordo com o diretor da Área de Economia e Contábeis da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Francisco Funcia, o motivo pela maior falta de planejamento nas classes de menor renda é o aumento da necessidade de consumo das pessoas que ascenderam socialmente nos últimos anos. “Se tem que olhar pela ótica da necessidade. Nos últimos anos o Brasil distribuiu renda e pessoas, antes privadas de bens de consumo, e que se inseriram na classe média. Com mais dinheiro, a baixa renda vê a necessidade de comprar certos bens, como uma geladeira melhor ou um fogão novo para substituir o atual, que já está muito velho”, afirma.

Ainda para Funcia, o centro do problema não é o consumismo. “O problema é a necessidade. O consumo é decorrente da necessidade. Com um aumento de renda as pessoas começam a atender suas necessidades e a comprar”, afirma ele.

Inadimplência e crédito

De acordo com pesquisa do Ibope, também realizada em junho, o percentual de endividados cresce conforme o aumento da renda familiar: 53% dos que recebem mais de 10 salários mínimos possuem dívidas, contra 26% dos que recebem até um salário mínimo. Ainda conforme estudo do Ibope, 37% dos brasileiros possuem alguma forma de endividamento, seja por empréstimo, financiamento, ou parcelamento de compras. Destes, 32% citam o cartão de crédito.

Pesquisa da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças) mostra que mesmo com a recente redução de juros do governo, que baixou a taxa Selic – que regula as demais taxas da economia – para 8,5% ao ano, as operadoras de cartão ainda cobram juros médios de 10,69% ao mês.

“É uma diferença enorme. Muitas vezes se pensa mais na prestação da compra do que se você pode pagá-la”, diz o professor sobre as taxas. Mas ele ressalta que o crédito não é o maior fator responsável pela inadimplência e falta de planejamento: “O Brasil está pouco afetado pela crise mundial graças ao estímulo dado pelo governo ao mercado interno, com o aumento de crédito. Lógico que há efeitos colaterais, a inadimplência. Mas ela é um problema de todas as faixas de renda e não da inserção de pessoas na classe média”.

Para Francisco Funcia, as propagandas e a falta de educação financeira são os motivos pela falta de planejamento econômico e pela inadimplência no Brasil. “Há um bombardeiro de propagandas que provocam o consumo excessivo, é preciso haver um controle disso, principalmente da propaganda infantil. A criança, que vê a propaganda desde pequena, também precisa receber uma educação financeira contínua desde o começo da escola. É ela que no futuro vai planejar o seu orçamento familiar”.

Poupança

De acordo com dados do Ibope, apenas 31% da população faz alguma reserva de dinheiro. Com o aumento de renda também cresce a poupança. Entre os brasileiros com renda familiar de até um salário mínimo, apenas 17% fazem alguma reserva de dinheiro, contra 66% dos que têm renda familiar de mais de 10 salários mínimos.

Entretanto, o professor é otimista. “Houve uma melhora na distribuição de renda no Brasil. Com mais dinheiro, as pessoas começarão a planejar mais. Mas é preciso manter essa distribuição e investir na educação financeira”, afirma Funcia.
 
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