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| Jingle tocado pela cidade é uma das poucas ferramentas de marketing disponíveis no ABC. Foto: Arthur Gandini |
Os eleitores do ABC podem encontrar nas ruas das sete cidades um personagem que só veem a cada quatro anos: carros de som com jingles de candidatos a prefeito e vereador. Para especialistas em marketing eleitoral, ojingle político ganha mais importância nas eleições em cidades em que os candidatos não têm propaganda própria na televisão, destacando-se como ferramenta de campanha.
“[Jingle] É a única mídia eletrônica que você consegue levar às ruas, os carros de som”, afirmou Evandro Gallão, produtor musical e professor de publicidade na Universidade Metodista de São Paulo. “É a forma que ele [o candidato] tem de dar o recado para multidões”, completou.
De acordo com Gallão, 70% a 80% dos políticos para os quais compôs jingles foram eleitos. Atualmente, dez candidatos no ABC têm trilhas de sua autoria, sendo dois concorrentes ao executivo.
“O jingle é uma maneira lúdica, divertida e descontraída de você passar a mensagem da campanha. As pessoas gostam de música”, afirmou o especialista. Ainda para Gallão, o eleitor é naturalmente desatento e desinteressado pela política. “A função do jingle é fazer uma repetição de mensagem para que ele acabe prestando atenção.”
Influência e gastos - Segundo o professor, muitas vezes a pessoa em questão também não percebe como é influenciada pelo jingle. “É muito comum o eleitor de forma consciente falar: ‘nossa, essa propaganda de novo, essa música tocando de novo na porta de casa’. Isso é consciente [reclamar].No inconsciente, ele vai cantarolar a música.”
Josemundo Dario Queiroz, o Josa, vereador e candidato à reeleição, afirma ter gasto R$ 3.500 para fazer sua trilha de campanha. Ele é presidente do PT em Diadema.
• Assista no vídeo abaixo como é feito um jingle político profissional
Já José Dourado, vereador e presidente do PSDB na cidade, utiliza jingle de sua última eleição. “Estou utilizando o da campanha anterior a vereador. Na época, eu gastei R$ 380. Com a segunda versão, com depoimentos de lideranças [políticas], o total de gastos foi entre R$ 2.000 e R$ 2.200.
Lauro Michels, candidato à prefeitura da cidade pelo PV, afirmou através de sua assessoria que não teve gastos por ter feito ele mesmo a música. “Eu e meu primo fizemos letra e melodia e um amigo cedeu o estúdio [para gravar]. Outro fez a locução”, contou.
De acordo com o professor Gallão, no ABC há um custo médio de R$ 2.000 a 3.000 para se fazer um jingle profissional para vereador e de R$ 4.000 a 5.000 para prefeito. “O trabalho é o mesmo, mas a importância [do cargo] faz o valor subir um pouco, a responsabilidade.”
Menos recursos - Para Victor Trujillo, coordenador do curso de Marketing Eleitoral da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), o jingle hoje, em geral, tem mais influência do que antigamente. “A legislação se aprimorou muito nos últimos anos. Antes era permitida boca de urna, candidatos dar presentes [aos eleitores]. Os recursos e ferramentas de marketing [político] foram reduzidos. Os jingles ganharam importância”, afirmou.
O jingle trabalha com a emoção de quem vota, motivo pelo qual algumas trilhas antigas são lembradas décadas depois. “Cria vínculos emocionais. Com a memorização, [o eleitor] começa a simpatizar com o candidato.”
• A reportagem foi às ruas para descobrir se a população reconhece jingles famosos de antigamente. Ouça no programa abaixo.
Entretanto, uma boa trilha não ganha eleição sozinha. “O jingle contribui decisivamente para a memorização do nome, do número do candidato e em alguns casos é possível criar a lembrança de uma proposta. Mas não pode colocar em um pedestal [o jingle]”, explicou Trujillo.
Eleitores do ABC divergem na opinião sobre a importância da propaganda musical. Para o aposentado Antonio da Silva Carvalho, o Toninho Desconhecido, ela depende de sua qualidade. “[A importância] depende do jingle, da mensagem que ele transmite. Se for bem feito, tem um conteúdo realmente objetivo, que diga alguma coisa, ele vai ficar gravado na memória do eleitor.”
Já o cozinheiro Abdo Inácio de Oliveira não gosta das trilhas. “É um aborrecimento, é uma sujeira, uma poluição sonora nas ruas”. Para ele, o jingle só faz diferença para quem não tem boa formação política. “Já tenho meu candidato certo, voto pelo o que ele [político] fez”.
Maria do Carmo, cabeleireira e militante partidária, acredita que o jingle ajuda em uma campanha. “É uma maneira de o povo ouvir [o político]. Mas o que manda (ajuda) mais na política é o perfil do candidato. ‘Barulho’ acho que não resolve muito”.
Guilherme Azevedo, estudante de publicidade e propaganda, diz não prestar atenção nos jingles. “Não costumo prestar. Nem quando a música é engraçada, é conhecida”. Entretanto, acredita que a ferramenta pode ajudar a eleger candidatos. “Tem gente que pode prestar atenção. Não é o meu caso, mas talvez ajude.”
