14 de jan. de 2016
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Fotógrafo da guerra civil na Síria conta os bastidores de imagens

14.1.16
Foto: Arthur Gandini
ARTHUR GANDINI

A travessia de uma rua na cidade de Aleppo, ao norte da Síria, traz perigo devido aos atiradores de elites escondidos no alto de prédios. Um fotógrafo, entretanto, entrevista para uma emissora de TV um rebelde curdo, o que rende uma foto do combatente em uma poltrona, com uma arma apoiada nas pernas, sob os destroços da cidade ao fundo. Cinco meses depois, no Brasil, o autor explica o porquê de ter feito esta entre diversas outras imagens: “Não existem fronteiras e barreiras que vão me impedir de fazer o meu trabalho. O importante é chegar lá”.

A foto é apenas uma das nove que podem ser vistas em grande escala na exposição “Filhos da Guerra: O custo humanitário de um conflito humanitário” do paraense Gabriel Chaim, 34, que pode ser visitada na Galeria Zipper, na zona sul de São Paulo, até o dia 16. (Confira as fotos no site da galeria)

O fotógrafo e documentarista participou de um bate-papo com cerca de cinquenta pessoas na última terça-feira (13), em meio às fotos expostas, junto com o curador Marcello Dantas. Chaim já viajou mais de dez vezes para a Síria desde 2013 e já foi alvo de bombas, viu dezenas de pessoas morreram na sua frente, ficou preso na Turquia e retornou ao país no ano passado, mesmo após ter sua vida colocada em risco por meio de telegrama enviado pela embaixada ao site de notícias em que trabalhava.

“Eu pensei: ‘não aguento mais mentiras’. Você escuta um rebelde e ele é o senhor da razão. Você escuta o outro lado, é a mesma coisa”, contou Chaim ao público, sobre como é fotografar na zona de conflito. “Dizem que para fotografar uma guerra, você precisa odiar um lado. Eu escolhi o lado humanitário. Foi um divisor na minha carreira profissional. As mentiras que te contam fazem desacreditar de qualquer coisa”

O fotógrafo conversou com os visitantes da galeria por cerca de duas horas e contou, por exemplo, que tirou a foto de uma menina aparentemente correndo e brincando em meio aos escombros para mostrar a normalidade do dia a dia mesmo em meio à guerra, na qual os tiroteios e bombardeiros não são frequentes e duram no máximo cerca de dez minutos, ao contrário do que se faz imaginar pela cobertura internacional do conflito. “Não faço minha foto pensando no conceitual, penso no documental. Depois, em uma curadoria, você pode fazer uma seleção.”

Chaim também contou a história da mulher com cicatrizes de uma das fotos. Militares que tentaram a abusar em 2014, no distrito de Damasco, jogaram ácido em seu rosto. Com o marido morto, Andy fugiu para o Brasil e posteriormente foi para o Egito.  “Quase todos os refugiados não querem ficar no Brasil. Eles sabem dos problemas que nós vivemos. Tentam usar de porta de entrada, sabem que o passaporte brasileiro tem bom trânsito no mundo”, afirma. Chaim também contou que uma ONG estadunidense ofereceu custear uma cirurgia de remoção das cicatrizes após a publicação da foto em um site de notícias. “Aí que eu quero chegar: a foto tem poder de mudança.”

Conflito

O fotógrafo conta que possui medo ao ficar nas zonas de conflito, o que varia conforme o lugar que está e o perigo que corre. “Tenho muito medo de estar nos lugares, mas controlo mais o medo lá do que outras pessoas. Quando você pode morrer, 80% das vezes que você escapa é sorte”, diz ele, que afirma que acabou aprendendo a evitar os atiradores de elite.

Para o documentarista, a guerra civil só irá acabar quando os rebeldes conseguirem tirar a vida de Bashar al-Assad. O curador da exposição Marcello Dantas, entretanto, discorda. “Se você decapita o Assad, essas pessoas (que o apoiam) fazem um novo Estado Islâmico.”

Já na visão de Chaim, o governo é o maior problema na guerra. “É muito importante falar do Estado Islâmico. Todo mundo fala do EI, mas o Bashar al-Assad é o maior vilão. O Estado Islâmico é mais perigoso pela ameaça de atentados pelo mundo. O Assad não faz isso”. O documentarista também contou como agências de viagem tem lucrado ao levar jornalistas às áreas de conflito e como o poder de recrutamento de combatentes é mais importante que o poder de fogo das armas.

Esteve ainda presente no bate-papo o apresentador de TV Cazé Peçanha entre o público, que questionou a sensibilidade das pessoas aos problemas nacionais. “Por que muitas pessoas se importam mais com problemas fora do país do que aqui no Brasil?” Para Marcello Dantas, o distanciamento faz com que muitas questões no Brasil sejam enxergadas mais por estrangeiros ou por quem vê outras realidades, como Gabriel Chaim.

Um novo bate-papo ainda será realizado no último dia da exposição, 16, na galeria Zipper, às 17h.
 
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