12 de set. de 2015
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Democratas “sucumbiram” na guerra da Síria, diz especialista

12.9.15
Foto: Arthur Gandini
ARTHUR GANDINI

A parte da população da Síria a favor da instauração de um regime democrático no país perdeu força devido à atual guerra civil. A declaração foi dada pelo professor de Relações Internacionais da ESPM Heni Ozi Cukierna na última segunda-feira (21) na UFABC (Universidade Federal do ABC). O também autor do blog Risco Político Global do site da Revista Exame falou sobre o assunto no seminário “Violência no Oriente Médio”, que teve o objetivo de tratar da atual situação da região e do Mundo Árabe para cerca de 80 alunos.

“Hoje a guerra na Síria não é uma luta entre dois lados, há o Hezbollah (organização paramilitar xiita), o regime ditador (de Bashar al-Assad), milícias, a Frente al-Nusra (milícia sunita e jihadista) e o Estado Islâmico”, afirmou Ozi. “Onde estão os democratas? Sucumbiram. Ou se radicaliza (neste cenário), ou fica de fora”, disse.

Para o professor, a primavera árabe não resultou em uma revolução no país árabe devido aos radicais e ao regime autoritário. “Quando você começa um processo de revolução, quem começa a ganhar espaço? Os radicais. No Oriente Médio, o moderado precisa enfrentar ou o ditador, ou o radical. O vácuo do poder cria o choque e a força democrática perde espaço.”

Ozi também criticou como a comunidade internacional tem observado o conflito na Síria. “Tem-se focado nos refugiados e não no problema (a guerra civil).” Para ele, a um receio de se intervir. “Não dá para olhar a Primavera Árabe e não pensar na intervenção. A opinião pública foi favorável (em outros casos). Tirar o ditador é a parte mais fácil, mas as consequências são danosas. A Líbia virou um Estado anárquico”, analisou.

Território

Outro especialista que conduziu o seminário foi o professor Samuel Feldbeg, da FESPSP, que estuda conflitos internacionais. Ele recordou o acordo de Sykes-Picot entre países europeus que partilharam entre si a colonização do continente africano no século XX, dividindo o território de modo que se uniu em mesmas regiões grupos e etnias opositoras. “No Iraque, o poder foi dado aos sunitas (que são minoria no país) pelos ingleses”, exemplificou.

Segundo o professor, a divisão do continente possui reflexo hoje na migração do continente. “Sempre que houve conflitos, os países vizinhos receberam refugiados porque não há fronteiras delimitadas.”

Para Feldbeg, o Brasil tem acolhido refugiados do continente, mas tem uma posição “em cima do muro. “É um discurso de conciliação. Não temos muito o que oferecer, não somos membro do Conselho de Segurança da ONU”, refletiu.

Já para o professor Heni Ozi, o país perde desse modo a oportunidade de provar ser “pacifista” como diz. “De se mostrar ao mundo como uma liderança, ocupar um espaço que talvez outros países não pudessem. O Brasil passa por crise interna e a política externa vai sendo deixada de lado”, afirmou.

Para o professor da UFABC, Artur Zimerman, organizador do seminário, é importante discutir no meio acadêmico a situação atual do Oriente Médio e do Mundo Árabe. “É um tema que, infelizmente, nunca sai da pauta, que gostaríamos que esses problemas não existissem. Temos que discutir eles para encontrar alternativas e reduzir ao máximo o sofrimento tanto dos sírios, como de outros povos da região que sofrem há décadas”, declarou.

Segundo o estudante do bacharelado em ciência e tecnologia, Gustavo Pinheiro, 19, é difícil para um estudante brasileiro entender o que acontece atualmente. “(O seminário) esclareceu questões que ficam (interpretadas) muito pelo o que é apresentado pela mídia, com uma análise superficial. Há uma certa distância dos alunos (daquela realidade). Desde o ensino básico se foca mais na Europa e o Oriente Médio fica em segundo plano”, afirmou.

Missões diplomáticas brasileiras estão autorizadas a emitir o visto especial há dois anos para aqueles que queiram vir ao Brasil e aqui solicitar o refúgio. Segundo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o último levantamento indica que já foram concedidos 7.752 vistos - a maioria nas embaixadas do Brasil no Líbano, Jordânia e Turquia.
 
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