Aline Oliva é estudante de veterinária da Unesp e tem 20 anos. Embora não milite em nenhum movimento feminista, apoia e divulga as ideias. Conversar com as pessoas, segundo ela, é um modo de divulgá-las. O Blog a entrevistou sobre o tema “a violência contra a mulher”.
Blog Sem Generalização - O que você acha dos homens que agridem fisicamente as mulheres?
Aline Oliva - Acho que são pessoas doentes, que não estão aptos a conviver em sociedade e deveriam ser presos e ter alguma espécie de acompanhamento psicológico. Além, óbvio, de serem covardes e machistas ao extremo.
Você acha que há diferença entre o homem bater na mulher e a mulher bater no homem? Por que a sociedade vê a primeira opção de um jeito muito pior que a outra? É também uma característica da sociedade enxergar um sexo como frágil?
A agressão física é também uma agressão moral e uma falta de respeito para com o outro. Nesse ponto de vista, não vejo diferença alguma entre o homem que bate na mulher e a mulher que bate no homem. Do ponto de vista do impacto físico, acho que geralmente o homem consegue causar mais danos do que a mulher em um combate corpo-a-corpo. Mas, no geral, não acho justificável a agressão, seja qual for o sexo da vítima e do agressor.
De onde você acha que vem a agressão do homem contra a mulher? De um problema nos valores sociais da sociedade ou é um problema individual de cada agressor?
A sociedade tende a ver a primeira agressão de um jeito pior que a segunda, na minha opinião, por dois grandes motivos: o primeiro é que, como eu disse, o 'estrago' feito por um homem em um combate corpo a corpo tende a ser maior do que o feito por uma mulher, o que faz a vítima ficar em situações realmente críticas.
O segundo motivo é que a nossa sociedade é essencialmente machista e, nessa linha de pensamento, não é admissível que uma mulher possa causar um dano físico relevante em um homem, afinal, a mulher é vista como frágil, submissa e afins. Enquanto o homem é visto como o forte, o grande provedor, o 'alfa'. Dessa forma, quando você diz que uma mulher agrediu um homem, muitos acabam ridicularizando a vítima, aquele pensamento 'como um homem pode apanhar de uma mulher?' e por isso não levam a agressão a sério.
Sim, é característica da sociedade enxergar um sexo como o frágil. No caso, o sexo feminino. Por isso homens tem que carregar sacolas, homens tem que abrir portas, homens tem que arrastar a cadeira e outros 'cavalheirismos'. Bem, eu sou capaz de carregar minhas sacolas, de abrir as portas e de sentar por conta própria, obrigada.
Existe também um motivo individual que torna o agressor o tal, ou atitudes assim são sempre causadas por valores coletivos?
A agressão de um homem contra uma mulher vem de inúmeros fatores. Ela é tanto fruto de experiências individuais e da formação da personalidade desse homem e da sua vítima como também é fruto de muitos valores sociais.
Eu acredito que a maior fonte de agressão é o sentimento de posse. O agressor vê sua vítima como um pertence, fazendo com ela o que bem entende, uma vez que ela é 'dele'. Então ele julga quando ela merece um prêmio ou quando ela deve ser 'disciplinada'. Infelizmente, ele não entendeu que ela tem o direito dela à autonomia e que está lidando com outro ser humano que se iguala a ele.
(Pergunta do estudante de jornalismo Felipe Faverani)
Existe toda uma discussão a respeito de as mulheres terem lutado todos esses anos para serem iguais aos homens, principalmente para ganhar os mesmos salários que os homens ganham. Já indo para o lado do trabalho como exploração, você gostaria de ser explorada igualmente aos homens e isso te satisfaria?"
O termo 'ser explorado' me traz uma conotação negativa. Acho que 'explorado' ninguém quer ser, nem homens, nem mulheres. Agora, a luta para igualar os salários sempre foi no sentido de que duas pessoas que desempenham uma mesma função devem receber o mesmo pagamento, independente de seu sexo. A mulher não trabalha menos que o homem, ela trabalha na mesma carga horária, desempenhando a mesma função e, consequentemente, ela é tão 'explorada' no trabalho quanto ele. O grande problema é que o nível de exploração é o mesmo, enquanto o ganho salarial difere. Isso parece justo para você? Bem, para mim não.
Por isso há toda a mobilização pedindo igualdade salarial. E, sim, eu ficaria muito feliz se meu salário fosse igual ao do meu colega que desempenha a mesma função. Acho que meu útero não me faz valer menos como profissional.
Eu não quero ter um “pipi” e a profissão “x” O que o movimento [do feminismo] busca, no meu entender, é ser igual ao homem enquanto ser humano. Ou seja; se eu desempenho o mesmo trabalho que você em uma empresa, nós temos que ganhar o mesmo salário, pois estamos prestando o mesmo serviço. Seja qual for esse serviço; desde atendente de telemarketing até coordenador de um setor.
O mesmo vale para a liberdade sexual; se um homem pode ter muitas parceiras sem que a sociedade o marginalize, então eu não entendo o motivo de uma mulher ser chamada de “puta” ou “vadia”, entre outros tipos de marginalização, quando ela escolhe ter muitos parceiros também.
Outro exemplo clássico é: um homem que está sem camisa está com calor, o que é normal para a sociedade. Uma mulher que usa uma roupa curta é ofendida e, infelizmente, ainda há quem diga que ela está pedindo para ser agredida sexualmente. Ninguém em sã consciência pede para ser agredido, essa acusação é absurda.
Então, quando digo que quero igualdade, é nesse sentido. Eu quero ter o direito de fazer as mesmas coisas sem ser marginalizada por isso. Quero dizer à sociedade que eu pertenço a mim, que sou livre, que minha sexualidade só diz respeito a mim e que tenho o direito de ser respeitada.
Gostaria de dizer mais alguma coisa sobre o assunto?
Gostaria de falar sobre um assunto não tocado e que eu acho importante
No Brasil (e no mundo) os números de casos de estupro são estrondosos. São inadmissíveis. E a mídia não se manifesta, não há pressão social para isso acabar.
O pior é que a vítima é humilhada, invadida, agredida física e psicologicamente e acaba sentindo-se envergonhada e culpada. Há ainda uma mentalidade na qual o ônus da culpa é invertido. Ao invés da sociedade culpar o estuprador, ela tenta achar brechas para culpar a vítima.
Então nós ouvimos tantas vezes 'viu? Eu falei para você não andar sozinha à noite', 'você pediu, estava usando roupas curtas, parece uma vadia', 'quem mandou beber demais?'.
Andar sozinha à noite é um direito meu, eu pago impostos para que tenhamos segurança pública.
Roupas curtas? Eu tenho o direito de vestir o que eu quiser, minha roupa não é um convite sexual e mesmo que eu estivesse afim de estar sensual naquela noite, não é para qualquer um. Eu decido quem terá relações comigo. Beber demais? Então quer dizer que se um homem for estuprado bêbado, não tem problema?
Entende? Outro dia eu mesma vi um homem lindíssimo sem camisa e, nossa, deu até uma taquicardia. Mulheres não são seres assexuados, nós também temos desejos. Entretanto, eu entendo que ele estar sem camisa não é um convite para estuprá-lo. Não me dá o direito de passar por cima da vontade dele. Por que isso muda quando a vítima é a mulher?
O grande problema da nossa sociedade é que estamos ensinando as meninas a não serem estupradas, ao invés de ensinar os meninos a não estuprarem. Se o carro de um amigo seu for roubado, você dirá 'também, quem mandou andar de carro?' ou 'quem mandou ter um carro tão bonito?'. Lógico que não! A culpa é do ladrão! A culpa sempre será do agressor. Por que é tão dificil entender?
Outro dia em uma discussão a respeito de feminismo, um homem teve a coragem de me dizer que mulheres 'pedem' para serem estupradas, insinuando-se sexualmente para os homens.
Bem, eu sofri assédio sexual com 8 anos de idade quando fui mostrar a um (ex) amigo da família uma revista que tinha uma foto de um cachorro da mesma raça que o dele. Uma criança de 8 anos estava se insinuando? Mostrar um cachorro em uma revista é muito provocante? Então a culpa foi minha? Uau, pensamento interessante.
#entrevistas_estudantes
6 de ago. de 2012
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