![]() |
| Aumento salarial dos trabalhadores do setor também contribuiu para o aumento. Foto: Rodrigo Pinto |
ARTHUR GANDINI, via ABCD Maior
(Também na edição impressa do jornal)
O pãezinho francês que chega à mesa dos moradores do ABCD está mais caro. De acordo com Antonio Carlos Rodrigues, presidente do SIPAN (Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de Santo André), o preço da farinha subiu 10% nos últimos 2 meses, devido à oscilação do dólar, aumento que segue a tendência de ser repassado para o preço dos pães nas padarias.
O sindicato orienta que as panificadoras da região aumentem o preço entre 5 e 7%. Um quilo de pãozinho que custava R$ 7,00 reais pode chegar agora até R$ 7,49. De acordo com cálculo feito pela reportagem em uma padaria do centro de São Bernardo, o consumidor passa a perder um pão a cada dez pães comprados, devido ao aumento. Levou-se em conta 50g em média como peso para cada unidade custando R$ 0,35.
Foram entrevistados clientes de panificadoras da Região. “Percebi um pouquinho”, diz o engenheiro mecânico Ubiratan de Bone, sobre a alta do alimento. “De manhã eu compro pão, uns seis pãezinhos, estava mais ou menos uns R$ 6,80 [o preço], deu uma ‘aumentadinha’ aí.” Para ele, o preço deve ter aumentado cerca de 20%. “A porcentagem é grande, mas o valor [preço] acaba sendo pouco.”
A dona de casa Gina Valenzuelo Bozzone discorda da opinião de Bone sobre alta do preço. “O aumento é horrível. [O pão francês] é o que a gente mais consome”. O assessor administrativo Edson Nascimento também não aprova o aumento. “Eu acho um absurdo. Antigamente você pagava 20 a 25 centavos, hoje você compra por quilo e não sabe quantos pãezinhos vem”.
A partir de novembro de 2006, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) determinou que todas as panificadoras e supermercados do país deveriam vender o pão francês por quilo, sob pena de multa. “Repassar [o aumento da farinha aos pães] eu acho que é justo, você [as padarias] não pode tomar prejuízo, mas tem que ser tolerável também”, critica Nascimento, que percebeu a diferença de preços a cerca de um mês.” Você não pode explorar o povo, mas o povo também não tem culpa se o dólar sobe ou não”.
Para Manuel Sampaio, presidente da AIPAN (Associação das Indústrias de Panificação e confeitaria do ABC), o aumento do preço é inevitável. “Por causa da oscilação do dólar a farinha subiu em média 10%. Nós também somos consumidores, não queríamos, mas a gente tem que fazer esse repasse. É impossível não repassar 5 a 7%”.
Dólar e importação de trigo
Ricardo Balistiero, economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, explica porque o dólar faz com que o preço da farinha costume aumentar. “Do começo do ano até agora o dólar aumentou cerca de 30% e 20% nos últimos dois meses. De R$ 1,20 reais, chegou já a valer R$2,10, estando agora por volta disso”, conta ele. “O Brasil importa muito trigo da Argentina. Quando o dólar está valendo muito, a farinha importada fica muito cara”.
Conforme informa a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) , a produção anual de trigo no Brasil oscila entre 5 e 6 milhões de toneladas. Ainda de acordo com dados da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), o Brasil importou neste ano, até Maio, cerca de 3 milhões de toneladas. Entre os principais países de venda – Argentina, Estados Unidos, Paraguai e Uruguai – o primeiro lidera o ranking: vendeu para o Brasil, no período analisado, cerca de 2 milhões de toneladas.
“É um questão de custo de transporte, ela fica mais perto”, comenta Antônio Carlos Rodrigues, presidente do SIPAN (Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria de Santo André – entidade ligada à AIPAN e também referente à Região). “Não tem uma política que favoreça a cultura de trigo no país”, explica Rodrigues. “Poderia haver uma política industrial que fornecesse isenção de impostos para quem plantasse trigo”, sugere ele, que considera ruim o aumento do preço dos pãezinhos. “A farinha fica vulnerável ao dólar e aumenta, mas nem sempre acontece o mesmo com os salários, que não estão ligados à moeda”.
O aposentado Sebastião Rodrigues, 74, reclama do aumento. “O pão inflaciona [fica mais caro], mas aí o trabalhador não tem poder aquisitivo. Aposentado também come”, brinca Sebastião.
Aumento não é imediato e depende do local
A reportagem também entrevistou donos de padarias na Região e constatou que nem em todas o aumento da farinha foi repassado aos pães. Elias Azevedo, gerente da panificadora onde foi feito o cálculo da perda de um pão do consumidor, conta que não repassou o novo preço. “Não aumentou, não vamos repassar por enquanto. Nosso preço já é bom, está no topo”, afirma ele, que cobra R$ 8,00 ao quilo.
Já Graça Maria Santos, sócia proprietária de uma padaria de Santo André, afirma que o último aumento do pãozinho no estabelecimento foi há quatro meses. “O repasse não foi imediato. Cobramos R$ 7,40 ao quilo. A gente segura [o aumento] o máximo que pode, aí quando vê que não dá, repassa.” Ela fala sobre a reação dos clientes ao aumento. “Tem gente que só percebe [a diferença de preço] quando chega ao caixa. Às vezes até voltam para pesar de novo. Geralmente, como é calculado por quilo, a pessoa não liga para o valor, percebe no preço final”.
Outros motivos de aumento
Alberto Nunes, sócio proprietário de uma padaria em São Caetano e vice-presidente do SIPAN, conta que seu estabelecimento repassou o aumento há cerca de uma semana. “Os clientes percebem. Nós procuramos justificar que é por causa do dólar. Também houve o dissídio coletivo [aumento salarial dos funcionários de panificação da região]. Foi dado um aumento real de 2,5% [acima da inflação]. Foi aprovado o dia do padeiro, que dá um vale de R$ 160,00 aos funcionários e uma cesta básica de natal [benefícios aprovados na última campanha salarial]”.
Também foi prorrogada a Medida Provisória 522/2011 do Governo Federal no último mês de Maio até dezembro deste ano. A MP isenta a importação de trigo no Brasil das contribuições PIS/Pasep e Cofins. O SIPAN também tem reivindicado no Senado Federal a isenção de impostos para produtos originados da farinha, como o ICMS e a própria Cofins.
O assessor Edson Nascimento explica porque para ele o pãozinho é tão importante. “O pãozinho é um dia-a-dia de todo mundo, seja rico ou pobre. É o que faz um café da manhã. Você pode até não comer um bolo, outra coisa, mas eu acho que um pãezinho não pode faltar na mesa do brasileiro”
