ARTHUR GANDINI
Segundo o meteorologista e pesquisador do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da Usp, Carlos Eduardo Fagiolo, a eficácia das previsões do tempo varia, normalmente, em torno de 98%. Nos período de troca de estações, a porcentagem desce para cerca de 90%. É um número que se distancia da credibilidade que as pessoas têm, geralmente, em relação à meteorologia.
![]() |
| Fagiolo: "As pessoas brincam, mas a precisão da meteorologia melhorou muito." Foto: Divulgação |
Para Fagiolo, existe um “mito” de que as previsões do tempo costumam dar errado. Essa opinião se originaria do senso comum e da brincadeira. “As pessoas brincam, mas a precisão da meteorologia melhorou muito. A previsão, quando começou, era feita apenas pela observação, pelos fazendeiros, por exemplo, que observavam os céus e que já conheciam o clima da região”, afirma ele. “Hoje são jogados dados de satélites em programas de computadores que analisam as mudanças de clima em um local, como temperatura e força do vento. Através de cálculos matemáticos é possível prever as mudanças de clima”, conta. “A precisão só diminuiu bastante quando se tenta prever o tempo com meses de antecedência. Aí se prevê a chuva, mas não exatamente quando ela vai ocorrer”.
O meteorologista ressalta que uma grande problemática da percepção das pessoas, em relação à meteorologia, é o fato da previsão do tempo não se referir a uma região inteira. “Em uma cidade grande como São Paulo, por exemplo, uma previsão se refere a pontos isolados da região. Se foi previsto que iria chover em alguns pontos específicos do local, quem estiver fora desses lugares vai pensar que a previsão deu errado”, afirma. Fagiolo também ressalta a importância de os jornalistas que trabalham na previsão do tempo se especificarem na área, através de cursos como os do CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) que ensinam a jornalistas noções de meteorologia. O próprio pesquisador já participou de aulas no centro para Rosa Jatobá, ex-jornalista do tempo da Rede Globo, que por muitos anos deu a previsão do tempo no Jornal Nacional, da TV Globo. A reportagem assistiu alguns jornais de emissoras da TV Aberta e observou que nem em todos é ressaltado que as previsões meteorológicas se referem apenas a pontos específicos de uma região.
Ângela Ruiz, ex-jornalista da TV Clima Tempo, onde trabalhou muitos anos como apresentadora do tempo, ressalta a importância de se especializar na área: “É bom que o jornalista faça um curso de meteorologia para ganhar mais experiência com os fenômenos naturais”, diz ela. “Mas no dia-a-dia, trabalhando na área, o jornalista também consegue ir aprendendo sozinho”, ressalta Ângela.
Credibilidade
O tatuador Juliano Fernandez conta que acredita apenas em parte nas previsões do tempo. “Elas dão certo 50% sim, 50% não. Já vi várias vezes o cara [apresentador] falar que vai chover e abre o maior sol no outro dia. Às vezes acontece e acerta. Mas é muito raro”.
O motoboy, Adriano Dias, também fica dividido entre acreditar ou não. “Às vezes acerta, às vezes dá errado. Na jornal [impresso] às vezes a gente vê que amanhã vai ter um tempo chuvoso, aí tem esse sol.” Questionado sobre o motivo da falta de credibilidade das previsões ser o fato de elas se referirem a pontos específicos, Dias concorda, mas não sabe explicar muito bem: “Pode ser que sim. Devido a gente estar próxima da Serra [do Mar], eu acho que pode ocorrer isso.”
Ana Lúcia Frony, meteorologista e vice-presidente da Clima Tempo - empresa dona da TV onde Ângela trabalhou – é enfática em relação a precisão da meteorologia. “A previsão erra. Médicos erram. Montadoras de carro erram. Todo mundo erra”, exemplifica. “Mas os índices melhoraram exponencialmente”.
Ana Lúcia, entretanto, critica a medição de precisão da meteorologia. “Existe esse 90, 98% de precisão, já foi medido. Mas a precisão é muito relativa. Depende do valor de referência de cada um. Mesmo porque, ou chove, ou não chove, não existe 50% de uma chuva”, afirma ela.
A vice-presidente também critica a avaliação que as pessoas fazem da meteorologia. “O senso de que se erra muito não é real. É comum as pessoas reclamarem por observações de terceiros. Aí nós puxamos os arquivos para ver se as previsões erraram e elas haviam acertado. As pessoas se informam em meios que não dão detalhes”, diz ela, em referência há quando não se é mencionado os pontos específicos de um local onde foi previsto chuva.
A dona de casa, Ana da Silva, acha que normalmente as previsões dão certo, mas desconfia da TV, embora não se lembre de nenhum caso específico. “Não acredito [nas previsões de telejornais]. Na televisão tem vez que eles erram. Fala que vai chover e não chove”.
Influência da Meteorologia
Para Carlos Eduardo Fagiolo, o ramo da ciência que estuda pauta a vida das pessoas e evita desastres. “Quando você vai sair de casa, você vê a previsão do tempo para saber se vai sair com casaco ou não. A meteorologia acaba fazendo parte da vida das pessoas. Ela é importante para prever desastres", defende o pesquisador.
A vice-presidente da Clima Tempo, Ana Lúcia Frony, acredita que a importância da meteorologia nesse caso é relativa. “Furacões são piores que enchentes. Mas nos Estados Unidos morrem menos pessoas com furacões do que com enchentes aqui no Brasil. Lá há mais preparação para esses desastres. A importância da meteorologia é diferente para cada pessoa”.
Fagiolo e Lúcia são otimistas em relação à prevenção de enchentes no Brasil. De acordo com o pesquisador, há poucas ações do governo hoje em relação a isso, mas bem mais do que antes. “Eu só lamento que foram necessários desastres para as pessoas acordarem”, diz ele sobre as fortes enchentes que inundaram a região serrana do Rio de Janeiro em 2011. Segundo Ana Lúcia, os meteorologistas avisam muitas vezes ao governo sobre as futuras enchentes, mas não é tomada nenhuma atitude pelas autoridades.
“Foi avisado ao governo sobre a tragédia do Rio”, conta. “Mas não deu tempo de se fazer nada e a Defesa Civil, que também foi alertada, não tinha o poder de remover as pessoas de locais de risco, isso é função da polícia”, ressalta a meteorologista. “Outro problema são as pessoas que não querem sair desses locais. Na época, houve taxistas que foram soterrados por não saírem do local, mesmo alertados pela Defesa Civil. O caminho é conscientização de todos”.
O governo federal vem aumentando o capital para a prevenção de enchentes. Em Janeiro deste ano, foi anunciada a verba de R$ 25 milhões destinada ao Rio de Janeiro. Minas Gerais e Espírito Santo, que sofreram com as enchentes ano passado, também receberam, respectivamente, R$ 30 milhões e R$ 20 milhões.
Para o motoboy, Adriano Dias, a importância da meteorologia na prevenção de enchentes é estratégica: “Eu acho que quando você tem a estratégia de ver os pontos onde vai chover mais forte, você pode ter um sinal para avisar as pessoas. Aí o povo pode ter o conhecimento de parar de jogar o lixo na rua”, ressalta ele sobre a importância de se reconhecer mais o perigo das enchentes. Adriano conversou com a reportagem em São Bernardo Campo, na região do ABC, área que costuma ser bastante pelas enxurradas.
Confiar ou não nas previsões meteorológicas depende da opinião de cada pessoa. Mesmo com especialistas afirmando a precisão da meteorologia, cada um tem a sua própria opinião sobre esta ciência. Mas uma coisa é certa: em época de enchentes e de outros desastres naturais, não custa nada todos prestarem atenção se aquele apresentador do jornal disse que amanhã vai chover ou não.
