29 de mai. de 2012
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“Eu ficaria surpreso com a vitória do Shafiq”, diz professor Murched Taha

29.5.12
(Matéria para o Icarabe)

Mohammed Mursi, candidato à presidência da República do Egito pela Irmandade Muçulmana, é que tem mais chances de vencer o segundo turno da eleição presidencial do país, prevista para os dias 16 e 17 de junho. Esse é o primeiro pleito após a queda do governo de Hosni Mubarack, causada pelos levantes populares na Praça Tahir.

Ahmed Shafiq, o outro postulante ao cargo, é ex-primeiro-ministro de Mubarack e um retorno do governo deposto seria a maior preocupação dos egípcios no momento. É o que diz o professor da Unifesp e Diretor de Relações Internacionais do Icarab, Murched Taha: “Do ponto de vista político seria um retrocesso em relação há tudo que ocorreu no Egito nos últimos 14 meses com a revolução se voltar o Shafiq ao poder”, conta ele.

Ainda para o professor, há outro fator considerável além do receio da população ao antigo governo: a capacidade administrativa dos dois candidatos.  Para Murched, há uma preocupação da população também em relação à Irmandade ter menos experiência de governar do que Shafiq, que já esteve no poder: “Eles [a Irmandade] assumiram agora a presidência do parlamento por ser o partido que mais deputados fizeram, mas se assumem a presidência da República estão entrando em um mundo novo pra eles, do ponto de vista administrativo.”

Mas para Murched Taha, isso inda não seria o suficiente para levar o ex-primeiro-ministro de volta ao governo: “Eu sinceramente ficaria surpreso com a vitória do Shafiq, mesmo ele tendo mais experiência. Vão se juntar a Irmandade e todos os outros [partidos] que foram derrotados. Entre os que ficaram entre os cinco primeiros colocados, estão ligados ao antigo governo apenas Amr Musa (ex-ministro de Relações Exteriores) e Shafiq. Então pode haver essa polarização desses dois partidos com os outros três. Por isso eu vejo as chances do Safiq mínimas. Agora se ele ganhar podem ocorrer distúrbios, mas se é a vontade popular, tem de ser aceita.”

Apoio a Shafiq

Para o professor, há dois fatores a favor do ex-primeiro-ministro, dinheiro e o exército: “Vai ocorrer muito dinheiro no segundo turno, como ocorreu no primeiro, para que [a eleição de Shafiq] aconteça. As Forças Armadas estão do lado do Shafiq.”

Murched não esperava que Sharfiq continuasse no pleito. Para ele, o pode econômico dos dirigentes do antigo governo, do qual aquele é candidato, é uma possível explicação: “Dos cinco que ficaram em primeiro na votação, eu achava que Shafiq seria o último. Achei que ela ficaria polarizada entre Mohammed Mursi e  Abul Futuh (islamista independente, ex-membro da Irmandade), ou qualquer um desses dois com o Amr Musa. Me surpreendeu por um lado essa vitória, mas por outro há o poder econômico dos antigos dirigentes , das Forças Armadas, eles jogaram pesado, dinheiro vindo do exterior com certeza teve uma influência muito grande nessa vitória.”

Uma preocupação no caso de uma vitória de Shafiq seria a posição da Junta Militar que se encontra no poder , ou também como se posicionaria em relação a ascensão da Irmandade ao governo, que poderia tomar atitudes políticas com qual discordasse. “De acordo com o exército, ele vai entregar o poder total”, conta o professor”. “ A Junta Militar iria entregar o poder totalmente ao presidente da República. Agora é difícil prever os acontecimentos, principalmente em relação a qual vai ser a postura da Irmandade Muçulmana em relação ao Tratado de Israel, se vai rever o tratado ou não vai.”

Ainda segundo o professor, o papel da juventude será fundamental no pleito: “Antes eles [os jovens] se dividiram em alguns partidos, mas agora vão ter que perceber quem representa o perigo para a sua ‘primavera’. Eles vão ter que mobilizar a população.”

Futuro do Egito e da Primavera Árabe

“Para mudança do status quo vigente nos últimos anos no Egito e no Mundo Árabe, eu votaria no Mursi”, conta o professor, ansiando por mudança na região. “Nossa esperança é que esse segundo turno ocorra com tranquilidade e que o povo egípcio esteja mostrando para os descrédulos do Ocidente que é um povo civilizado, que tem condição de viver em regime democrático, de ter eleições sem nenhuma ‘ajuda’ dos descrédulos.”

Murched Taha também é otimista em relação ao futuro da revolução:  “Acho que a dificuldade maior é a Primavera Árabe estar na Síria, mas isso não vai demorar muito tempo, esse governo não vai se sustentar por muito tempo e a Primavera Árabe vai continuar. É impossível um governante governar nesse status de caos  em que se encontra a Síria”, conta.  “Vai chegar um tempo em que a situação vai ficar insustentável do ponto de vista econômico, de toda a infraestrutura que se tem uma nação. Ele se sustenta hoje por estar tendo o apoio maciço do Iraque, da população libanesa, do Irã, mais especificamente, a nível internacional, da Rússia e da China. Mas essa situação não vai se pendurar por muito tempo. A população da Síria, depois de 10, 12 mil mortos, de milhares de feridos e prisioneiros, não vai voltar atrás. Não vai aceitar que esse camarada dirija essa ditadura novamente. 43 anos de ditadura ‘pai e filho’ já bastam para a população”, afirma o professor.
 
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